Em comemoração aos 30 anos do lançamento do sucesso “Exagerado”, primeiro single da carreira solo de Cazuza, o site UOL convidou alguns artistas para que fizessem suas releituras da canção. Um deles foi a cantora e musicista Adriana Sanchez, líder e acordeonista do conjunto sertanejo feminino Barra da Saia, que, apesar de ter lançado o primeiro disco em 2004, vem ganhando mais espaço nos últimos anos, graças às bênçãos de famosos como Hebe Camargo (que foi fã) e Fausto Silva. Voltar ao rock para homenagear Cazuza não foi problema para Adriana, que começou numa banda cover do Pink Floyd. Na entrevista a seguir, ela fala sobre sua trajetória, cheia de “causos” interessantes.
Verdade que sua primeira banda era cover do Pink Floyd?!
É verdade sim. Minha primeira banda foi com amigos e queríamos muito tocar Pink Floyd, mais especificamente o álbum “The Wall”. Na época, achávamos que éramos incríveis [Risos], mas hoje percebo que éramos terríveis...
Como esse começo roqueiro foi se transformando numa carreira eclética?
Comecei minha vida artística na dança, pois queria ser bailarina. Mas tocava piano erudito, ouvia todo tipo de música, da clássica ao rock, passando por Elvis, Sinatra, Pink Floyd. Sempre fui muito atenta a todos os estilos. Música boa não tem estilo.
Das bandas de baile, você passou a acompanhar Itamar Assumpção na Orquídeas do Brasil. Como foi esse período?
Meu primeiro trabalho grande profissional foi com uma banda de baile, na qual tocávamos de tudo, e foi uma escola incrível, estilos, versatilidade, desafio mesmo pra quem nunca tinha feito show. Sou muito grata pela oportunidade que me deram. Comecei cantando e depois de um ano passei a tocar teclado também. Depois de dois anos nessa banda, fui convidada para tocar em algumas bandas em São Paulo, e nessa época o Itamar Assumpção tinha acabado de montar uma banda feminina chamada Orquídeas do Brasil. Me lembro até hoje de ver a foto dele com elas em um jornal, e pensei como gostaria de estar numa banda assim, com um artista como ele. No mesmo dia, no fim da tarde, recebi um telefone dele mesmo, me convidando para entrar na banda. Fiquei muito feliz e pensei: “Uau, sonhos se realizam, basta pensar com muita fé”. Foi um período incrível, de aprendizado, descobertas e crescimento musical. Convivi com um artista ímpar, de criatividade ilimitada e que nos guiava como um mentor, um verdadeiro mestre. Com o “Ita”, pude compartilhar a música com muita gente incrível, como Rita Lee, Jards Macalé, Tom Zé, Luiz Melodia, Zélia Duncan, entre tantos. Uma fase divisora de águas na minha formação musical e pessoal.
Por que você decidiu fazer uma banda exclusivamente feminina, a Barra da Saia?
Depois de algum tempo acompanhando artistas, tocando com bandas variadas, me deu vontade de voar sozinha, de ter meu trabalho, meu caminho, e eu já tinha essa experiência com banda feminina. Acho muito bacana ver mulheres tocando, é forte, marcante. Quando pensei na minha banda, quis manter a feminilidade imperando. Veio a vontade de ter uma banda diferente do que conhecia, uma banda feminina no segmento caipira, sertanejo, tão dominado por homens, e fazer algo com personalidade, atitude, pra revirar a cabeça mesmo. E assim nasceu a Barra da Saia.
Com a Barra da Saia, você teve a oportunidade de se apresentar com nomes como Leonardo e Hebe Camargo. O que você guarda dessas experiências?
Nossa, eu sou eternamente grata ao caminho da Barra da Saia, a todo carinho e respeito que conquistamos. A vida me presenteou com experiências e pessoas inesquecíveis, cada um com seu carinho, sua generosidade. O Leonardo, que abriu seu palco, seu espaço sagrado para nos receber e nos apresentar para o seu público nas maiores casa de shows do Brasil, o que posso dizer? Ele é divertido, genuíno, verdadeiro. Sérgio Reis, que levava sempre a gente em seu programa e dizia: “Baixinha, o Brasil tem que conhecer vocês.”. A rainha Hebe, meu Deus, que pessoa de luz e de generosidade! Ela nos pegou pela mão, era nossa porta voz, falava para todo mundo que era nossa fã, imagina. A Hebe nossa fã?! Tanta gente boa que ela conhecia, e ela dizia que nós tínhamos que ser descobertas pelo mundo. Só isso já é basta pra olhar estes 16 anos e dizer que tudo valeu a pena, cada lágrima, cada dificuldade, cada não...
E que tal passar da música pro cinema, interpretando a Irmã Dulce no filme “Anjo Bom da Bahia”?
O Padre Antônio Maria e eu ficamos muito amigos, e nessa amizade um dia recebi a ligação dele, numa noite bem tarde, até fiquei preocupada que algo havia acontecido. E ele tranquilamente disse: “Filha, você sabia que eu era amigo da Irmã Dulce e que ela tocava sanfona?”. E eu respondi : “Não padre, não sabia, nossa, que demais!”. E ele: “E eu vou fazer um filme sobre ela e você será a Irmã Dulce”. Dei uma risada e expliquei que não sou atriz e ele simplesmente respondeu: “Agora é!”. Assim, entrei no mundo da atuação. Foi incrível viver alguém tão forte e tão singelo, tão despido de maldade e tão entregue ao próximo. Aprendi tanto com essa experiência, principalmente a acreditar que podemos tudo, desde que façamos com o coração, e foi assim que eu vivi essa mulher tão grande espiritualmente e tão frágil fisicamente. Com todo meu coração.
De volta à música. Você acaba de lançar um projeto tributo a Luiz Gonzaga, o “Salve Lua”, em que faz uma releitura de grandes clássicos, utilizando elementos eletrônicos em sintonia com a sanfona. Como tem sido a recepção a essa iniciativa?
Estou muito feliz, meu trabalho foi recebido no Brasil e no exterior. E também tive uma resposta incrível dos amantes do forró, apesar de não ser nordestina e de fazer uma releitura meio ousada, misturando baião com pedais de efeito e batidas eletrônicas, xote com sampler. Corria o risco de ser um pouco rejeitada, mas foi totalmente o contrário, fui recebida muito bem por todos. Em Recife e todo Nordeste, a recepção foi maravilhosa. Tenho recebido mensagem de todo o país, fãs que me acompanhavam estão curtindo e novos fãs que estão me conhecendo através deste projeto também estão sendo muito carinhosos. Estou muito feliz.
E do forró de volta pro rock. Como surgiu o convite para tocar no projeto “Exagerado”, que o UOL fez em homenagem aos 30 anos do hit de Cazuza?
Bom, na verdade não é bem do forró pro rock. Sou uma artista que carrega muitas influências, tenho a música da fronteira, latina, como influência forte, já que meu pai é equatoriano, mas a isso somo meus sons. O Salve Lua tem minha personalidade, a Barra da Saia tem minha personalidade e eu gosto muito de misturar sons e influências. Nessa releitura de “Exagerado”, tem um pouco de tudo isso. A música pop e rock também pode ter o toque da sanfona. O convite surgiu do UOL. O responsável pela parte musical do portal conheceu meu trabalho com o “Salve Lua” e fez esse convite delicioso para que eu fizesse uma versão desse clássico que está completando 30 anos. A única coisa que ele queria era que eu estivesse sozinha, eu e a sanfona, sem banda, sem apoio de outros instrumentos. E foi um desafio que eu adorei.
Quais seus planos para os próximos meses?
Bom, estamos pensando no próximo trabalho da Barra da Saia, preparando o novo show. Em paralelo, estou terminando um CD com dois grandes compositores, o pantaneiro Guilherme Rondon e o Rafael Altério. Juntos, temos um projeto chamado Todo Interior é Igual. Também estou divulgando o meu CD “Salve Lua” e fazendo shows, sem contar que estou preparando mais um álbum para o ano que vem, que é surpresa. Minha ideia é ir criando, criando e criando. Logo novidades a caminho.