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Enem 2021: caráter pedagógico se sobrepôs à política

Confira a análise dos professores do curso Poliedro sobre as provas de linguagem e ciências humanas, além da redação

| Da Redação

Primeiro dia do Enem 2021 foi marcado por questões que abordaram temas sociais

 

Cerca de  26% dos candidatos faltaram ao primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2021 digital e impresso, realizado neste domingo (21/11). Do total de 3,1 milhões de candidatos inscritos, cerca de 2,3 milhões compareceram às provas. O exame foi realizado em mais de 1,7 mil municípios. Os números foram divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

No Enem impresso, com 3.040.907 inscrições, as faltas chegaram a 25,5%. No Enem digital, 46,1% dos 68.893 inscritos não compareceram ao exame.  


Análise da prova 

O primeiro dia do Enem foi marcado por uma prova em que o pedagógico se sobressaiu em relação ao político. E isso é bom para os estudantes. A análise é de Fernando Santo, gerente de Inteligência Educacional e Avaliações do Poliedro. 


A redação foi sobre "Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil". No domingo que vem, 28/11, que vem será realizada a segunda parte do Enem 2021 com provas sobre matemática e ciências da natureza.  


Segundo Santo, as provas de inglês e de espanhol foram "muito tradicionais", exigindo dos candidatos capacidade de interpretar textos.  


Na visão de Santo, a prova de ciências humanas foi equilibrada, cobrando dos alunos conhecimento sobre autores esperados, como Descartes.  


Ele elogiou as questões, cuja qualidade atribui aos técnicos do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Enem), que teriam conseguido manter a qualidade da prova, apesar das supostas pressões por parte do governo federal para eliminar questões de cunho político, segundo denúncias dos funcionários do Instituto. 

 
Temas como luta de classes, desigualdades sociais e uma citação à música "Admirável Gado Novo", de Zé Ramalho - o que foi considerado um aspecto positivo.

Redação
 

Leia, a seguir, a análise dos professores do Poliedro sobre a redação do Enem 2021:.  


O tema da redação do Enem 2021 manteve a tendência de trabalhar com direitos garantidos aos cidadãos. Contudo, neste ano, não foi escolhido um recorte ou direito específico como nos anos anteriores - saúde mental (2020) ou acesso ao cinema (2019), enquanto eixos da saúde e da cultura, respectivamente -, mas sim uma abordagem ampla que se coloca como passaporte para todos os outros direitos assegurados: o registro civil que é, inclusive, gratuito constitucionalmente.  


A frase temática traz uma interessante relação de causa e consequência: o registro civil é um documento que garante o acesso à cidadania, isto é, ao atributo jurídico de cidadão dotado de direitos desde o nascimento, a partir da certidão de nascimento, que é um registro civil que garante sua saída da invisibilidade. Nesse sentido, o indivíduo deixa de ser apenas sujeito e ganha status de cidadão, ou seja, passa a existir nas pesquisas, estatísticas, a integrar políticas públicas e ter acesso a outros tipos de registro como RG, CPF e Título de Eleitor, uma vez que o sistema brasileiro de documentação é encadeado. Sem o documento fundador e os demais documentos, os direitos fundamentais como educação, moradia, saúde, mobilidade e as políticas de promoção a esses direitos ficam inacessíveis.  


Dentre as causas dessa invisibilidade decorrente da ausência de registro civil estão a impossibilidade de matricular-se ou mesmo de um adulto sem registro matricular seus filhos na escola, o impedimento de deslocamento interestadual, falta de acesso ao calendário de vacinação, à carteira de trabalho e impraticabilidade de ter conta bancária.  


Os brasileiros e brasileiras invisíveis são, em geral, pobres, moradores das zonas rurais, além daqueles que vivem em situação de rua. Trazem em comum a marca da vulnerabilidade que os mantém nessa condição. Consequentemente, são objeto de deboche, negligência social e governamental, isolamento, exploração e perpetuam um ciclo de pobreza e abandono.  


Contrariamente ao cidadão médio brasileiro que acaba se hiperdocumentando, uma vez que acumula RG, CPF, CNH e outras siglas que o permitem gozar da condição de cidadão, os "não-cidadãos" protagonizam o trabalho informal, a falta de tratamento para doenças, o analfabetismo e, mais recentemente, foram impedidos de receber o auxílio emergencial, impossibilitados de vacinar-se contra o Covid-19 e outras tantas mazelas que revelam o quanto uma constituição que assegura direitos não se coloca em prática sem que esse ponto de partida seja garantido.  


A prova apresentou quatro textos motivadores, sendo o primeiro deles um trecho do trabalho acadêmico de Fernanda da Escóssia intitulado Invisíveis: uma etnografia sobre identidade, direitos e cidadania nas trajetórias de brasileiros sem documento e que deu origem ao livro recém-lançado "Invisíveis - Uma etnografia sobre Brasileiros sem Documento". O trecho do artigo trazia informações sobre jovens, velhos e crianças em busca de sua documentação e que, ao serem entrevistados, revelavam sua vergonha e considerarem-se nada por não serem reconhecidos pelo estado.  

 
O segundo texto dava conta de que a Lei 9534/1997 que garante a gratuidade do registro de não é plenamente cumprida visto que muitas pessoas não têm certidão de nascimento no Brasil. Havia ainda um mapa da invisibilidade no Brasil com estimativas de quantas pessoas não têm esse registro em cada região, com destaque para o dado de que são 898 mil no nordeste e 1,15 milhão no sudeste.  


O terceiro texto mostrava os benefícios de se ter o registro civil como a possibilidade de ter carteira de vacinação dentre outros e, por fim, o quarto texto era uma imagem que mostrava um quadro preto e, no canto dela, uma menina sobreposta por digitais com a frase "Defensoras e defensores públicos pelo direito à documentação pessoal" que integrou a campanha nacional da entidade em 2018. A partir da leitura deles era possível, portanto, chegar aos elementos principais que constituem a redação do Enem, isto é, formular uma tese a partir das causas e consequências da invisibilidade decorrente da ausência de registro civil e, também, elaborar a proposta de intervenção como forma de solucionar essa problemática.  


Alguns atores da esfera governamental, principalmente do âmbito jurídico, poderiam ser utilizados na redação como agentes da proposta de intervenção: as Defensorias Públicas Estaduais e o Ministério Público, por exemplo, por terem papel de assistência jurídica. O Ministério da Justiça, que pode promover campanhas e mutirões para identificar e orientar essas pessoas e, também, os cartórios de registro, que são entidades de caráter privado as quais constituem atividades de serviço público.  


O aluno também poderia mobilizar o terceiro setor como parte de sua proposta de intervenção ao indicar, por exemplo, a atuação de Organizações não Governamentais como é o caso da iniciativa SP Invisível, que apoia parcelas da população em situação de vulnerabilidade visando minimizar a invisibilidade ocasionada, muitas das vezes, pela falta de documentos.