O que muda no trabalho do repórter na "era das fake news"?

Em meio à disseminação de notícias falsas, aumenta a responsabilidade do jornalista, ao mesmo tempo em que sua credibilidade se torna mais valorizada

    • Da Redação
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    • Marta Avancini

O repórter é a alma de uma redação. É ele que sai às ruas, ouve as pessoas, busca informações com as fontes (oficiais e não-oficiais) e analisa dados para elaborar as notícias que chegam até nós pelos mais diversos canais: tevê, rádio, jornais e revistas e, principalmente, pela internet.  

A internet, contudo, não é somente um canal de difusão de informações produzidas por veículos tradicionais de comunicação. Ela é um campo onde todos podem ter voz. Por exemplo, qualquer um conectado a uma rede social ou ao WhatsApp tem a seu dispor uma plataforma para contar suas histórias, opinar sobre os acontecimentos, publicar fotos ou vídeos e até difundir informações que não são verdadeiras, as chamadas fake news.  

Um dado da Agência Lupa, especializada em checagem de informações, ajuda a dimensionar o impacto das fake news na vida dos brasileiros: durante a campanha do primeiro turno das eleições de 2018, dez notícias falsas foram compartilhadas 865 mil vezes. De acordo com a Lupa, trata-se de um "mar de informações truncadas, que misturam fotos toscamente adulterada, textos maliciosos e mal escritos, vídeos antigos postados com legendas mentirosas" publicados com um único objetivo: enganar o eleitor e dividir o Brasil, num contexto de uma disputa muito acirrada.  

As fake news não são uma novidade da era da internet; elas sempre existiram. No entanto, por causa da rede, elas ganharam uma proporção que nunca haviam tido antes na história da humanidade, como relata o jornal El País.

Mas qual será o efeito desse cenário sobre o trabalho dos repórteres, cujo dia é comemorado em 16 de fevereiro? Para Gustavo Biano e Bianca Rosa, que trabalham na EPTV Campinas, a disseminação das fake news aumenta a responsabilidade e a importância do trabalho do repórter.   

"O cenário atual traz uma mudança à qual os jornalistas têm de se adaptar. Em contrapartida, a profissão passa a ser muito importante porque, em meio a tanta informação circulando, as pessoas precisam saber o que, de fato, é relevante e verdadeiro", analisa Bianca.  

Gustavo Biano tem uma visão parecida. "Hoje a preocupação com a apuração é maior. É preciso confirmar as informações que chegam com as fontes e tomar cuidado para não embarcar numa notícia falsa", afirma.     



Para Gustavo Biano, o repórter precisa redobrar os cuidados com a checagem das informações para não publicar notícias falsas

 

A desconfiança pode ser, então, uma grande aliada. Biano, que é repórter de esportes, conta que certa vez leu no Twitter a notícia que certo jogador seria contratado pela Ponte Preta. "Achei estranho porque era uma informação que não fazia muito sentido. Chequei com as fontes e vi que, realmente, a notícia era falsa", relata o jornalista.  

Outra vez, após sair de um plantão de fim de semana na tevê, Biano recebeu um telefonema de uma produtora. Ela havia recebido via WhatsApp uma foto de um raio que havia atingido Campinas, enviada por um telespectador. Ele a orientou a procurar a foto no Google para checar a informação e... bingo: a foto estava lá e tinha nada a ver com Campinas.  

"Dar um Google" é uma das estratégias para tirar a dúvida se uma notícia é falsa ou não. Hoje em dia, é importante que todas as pessoas tomem certos cuidados quando recebem uma notícia bombástica via WhatsApp: antes de passar a informação adiante é recomendável pesquisar, analisar se o texto tem muitos erros e opiniões e confirmar a notícia num veículo de comunicação conhecido, como sugere a Superinteressante.  

É justamente por isso, que o jornalismo e o trabalho do repórter passam a ser fundamentais, explica Bianca. "Em meio a tanta notícia falsa, o jornalista é uma referência para as pessoas, pois possui credibilidade", reitera.    


A jornalista Bianca Rosa defende que o jornalista continua sendo uma referência para as pessoas, pois possui credibilidade

Em contrapartida, continua a repórter, com a disseminação das fake news, a responsabilidade do repórter só aumenta. "São muitas informações verdadeiras e falsas - que chegam de todo lado", diz Bianca, que há 18 anos trabalha na EPTV.  

Embora a capacidade de checar a veracidade das informações seja importante no dia a dia de um repórter, o sucesso na profissão depende também de muita dedicação e da capacidade de ser versátil. Biano começou a atuar na área com 15 anos, como operador de som de uma rádio numa cidade do interior do Paraná, onde vivia. "Fui à rádio e pedi para fazer um estágio. A única vaga disponível era das 5h às 8h da manhã. Aceitei, não tive dúvidas, porque estava certo do que queria".  

Depois de passar por várias emissoras de rádio, inclusive em Campinas, começou a trabalhar em tevê. Ele ingressou na EPTV em 2010 e se tornou setorista de esportes. Contudo, ao longo da carreira, já fez um pouco de tudo. "Quando trabalhava no Sul de Minas, fazia a cobertura de agricultura. Nunca imaginei que fosse fazer matéria sobre colheita de milho, café, mas fiz. E também já fiz muita matéria de polícia", lembra o jornalista.  

Bianca, por sua vez, conta que suas pautas favoritas são aquelas que envolvem alguma questão social. "Eu me sinto útil quando faço reportagens que denunciam desigualdades sociais ou problemas que as pessoas enfrentam, como falta de remédios em centros de saúde, porque tenho a possibilidade de cobrar as autoridades em nome dessas pessoas", conta ela.



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