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Jornalista analisa, em livro, visão do jovem sobre religião

Motivos que levam jovem a seguir ou não uma religião foram tema do TCC de Nathalia Di Oliveira, que se transformou em livro

| Da Redação

O Brasil é um Estado laico e não discrimina nenhuma religião, estabelece a Constituição Federal. No entanto, no país, a intolerância religiosa se manifesta por meio de agressões físicas, xingamentos, depredações de templos, pichações, destruição de imagens, entre outras formas.  

Para combater esse crime, foi criado o Dia Nacional da Intolerância Religiosa, comemorado todo dia 21 de janeiro.  A data, comemorada desde 2017, é uma homenagem à Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum (BA), que morreu vítima de intolerância por ser praticante de religião de matriz africana.  

Os dados oficiais ajudam a dimensionar a intolerância religiosa no país. No primeiro semestre de 2018, o Ministério dos Direitos Humanos (hoje transformado em Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos) registrou 210 denúncias por discriminação de religião: 34 contra a umbanda, 20 contra o candomblé e 16 contra a evangélica. Entre 2011 e 2017, foram registradas quase 2 mil denúncias ao Disque 100, serviço do ministério.  

Pensando em promover a conscientização contra a intolerância religiosa entre os jovens, a jornalista Nathalia Di Oliveira, 22 anos, recém-formanda no Fiam-Faam Centro Universitário, em São Paulo, escreveu o livro "O caminho que escolhi: por que o jovem decide seguir ou não uma religião?". A obra é uma grande reportagem, na qual Nathalia apresenta, por meio de relatos de 23 jovens de 15 a 25 anos, os motivos que os levaram a escolher (ou não) uma religião. O livro é resultado de seu Trabalho de Conclusão de Curso, defendido em 2018.  

Além de abordar um tema que aparece com frequência em notícias (no Brasil e em várias partes do mundo), no livro, Nathalia dá voz ao jovem. "Algumas pesquisas mostram que o jovem está se afastando da religião, mas, na verdade, percebi que ele quer falar sobre o assunto. Muitos jovens recusam a adesão aos cultos e rituais, mas querem querem experimentar, refletir, explicar as razões de sua escolha para serem compreendidos", afirma a jornalista.  Segundo ela, entre os entrevistados ela percebeu a intenção de estimular a empatia e diminuir a intolerância.  

O livro pode ser baixado gratuitamente aqui.  

 Nathalia Di Oliveira, durante defesa do TCC que resultou no livro "O caminho que escolhi" (Foto: Acervo Pessoal)

Histórico
 

A intolerância religiosa não é um fenômeno novo, nem restrito ao Brasil. No mundo, são muitos os exemplos de intolerância religiosa que foi até causa de guerras: historicamente, os judeus foram vítimas de intolerância religiosa. Os pagãos também foram perseguidos, especialmente na Idade Média. No Império Romano, o catolicismo não era aceito e, na atualidade, muitos países islâmicos não se permite outra religião.

Em nosso país, ela já se manifestou já no descobrimento do Brasil, quando os portugueses não permitiam nenhuma religião que não fosse a católica.   Com a chegada nos negros escravizados, que trouxeram as religiões africanas, eles passaram a ser discriminados. Para fazer frente a isso a manter sua fé, usavam imagens católicas quando, na verdade, estavam cultuando seus orixás, dando origem ao sincretismo religioso.  

No Império, a religião católica chegou a ser declarada como oficial no Brasil, mas, após a proclamação da República foi instituída a separação entre Estado e religião, em vigor até hoje.  

A intolerância religião é um considerada um fenômeno complexo, porém, segundo pesquisadores, no Brasil, ela pode ser associada ao racismo. Segundo o sociólogo Milton Bortoleto, em entrevista do Instituto Net Claro Embratel, existe uma resistência por parte dos cristãos contra religiões de outras matrizes no país, no entanto as religiões africanas são mais alvo de desconfiança e incômodo do que outras, como o budismo.  

Para o antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, ligado à Universidade de São Paulo (USP), a intolerância está relacionada à visão de mundo, na qual o bem e o mal são incompatíveis, afirmou em entrevista ao Nexo.