Confira a resolução da prova língua portuguesa e da redação do vestibular Unicamp

Professores do Elite Pré-Vestibular Campinas resolveram e comentaram o exame

    • Virando Bixo
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Os professores do Elite Pré-Vestibular Campinas resolveram a prova de redação e língua portuguesa e literatura do vestibular da Unicamp 2018, realizada neste domingo. Leia, a seguir, o comentário sobre as duas propostas de redação – um texto para ser lido em uma palestra sobre pós-verdade e um artigo de opinião para um jornal de grande circulação sobre os limites da liberdade de expressão.

E veja, aqui, a resolução completa da prova divulgada pelo Elite Campinas.

REDAÇÃO 1: Palestra sobre pós-verdade
A primeira proposta de redação do vestibular Unicamp 2018 coloca o candidato diante de uma situação de produção textual cujos cernes são a definição, a exemplificação e a reflexão acerca do fenômeno da pós-verdade. O gênero a ser mobilizado para o cumprimento de tal propósito comunicativo é uma palestra, a ser proferida por um estudante de Ensino Médio a seus colegas. O texto-fonte oferecia todas as ferramentas para a produção do conteúdo delimitado pelo enunciado, de modo que mesmo se o candidato não estivesse familiarizado com a discussão lhe fosse possível cumprir com as exigências da prova.

Para apresentar “uma explicação sobre o que é pós-verdade e sua relação com as redes sociais”, dever-se-ia estar atento logo às primeiras linhas do texto-fonte, que explicam que pós-verdade é a palavra do ano de 2016, de acordo com o Oxford Dictionaires, e que se relaciona ao fato de que a verdade vem perdendo espaço no debate político devido à proliferação de notícias falsas, correntemente produzidas e disseminadas por intermédio das redes sociais. Dentre elas, o texto-fonte destaca o papel de Facebook, Twitter e Whatsapp, uma vez que o compartilhamento desse tipo de informação por conhecidos faz com que tenham mais credibilidade, além disso, funcionamento do feed de notícias do Facebook ampliou o alcance das notícias falsas e colaborou para que fossem vistas como legítimas por seus usuários, dado que os algoritmos utilizados pela rede fazem com que um indivíduo veja, em sua timeline, informações com as quais está predisposto a concordar, de modo a dificultar o acesso a posicionamentos divergentes, que poderiam evidenciar a inverdade de uma notícia.

Já para apresentar “alguns exemplos de notícias falsas que circularam nas redes sociais e se tornaram pós-verdade”, o candidato poderia se valer do boato de que o papa Francisco apoiava a candidatura de Donald Trump ou de que Barack Obama seria o fundador do Estado Islâmico – informações que foram desmentidas, mas que podem ter influenciado o resultado das eleições nos EUA. Era possível mencionar ainda o boato de que permanecer na União Europeia tinha o custo semanal de US$ 470 milhões à Grã-Bretanha – o que pode ter interferido no Brexit.

Por fim, para fornecer “consequências sociais que a disseminação de pós-verdades pode trazer”, o candidato, ainda apoiado no texto-fonte, poderia apresentar desdobramentos mais genéricos - como o próprio esvaziamento da verdade no contexto político ou a inviabilização de um debate calcado em ideias divergentes – ou mais específicos, como os citados anteriormente, a saber, a interferência nas eleições norte-americanas e na saída do Reino Unido da União Europeia.

Vale ressaltar que a prova apresenta a possibilidade de extrapolação do texto-fonte para a composição da redação, o que amplia o ferramental do candidato.

Em relação ao gênero palestra, a informação de que será “lida em voz alta na íntegra” para uma plateia corrobora o fato de que se trata de uma interação simultânea entre quem enuncia o texto e o seu público, de modo que essa interação seja construída ao longo da redação.

Charge sobre pós-verdade utilizada na prova de redação da segunda fase da Unicamp 2018



REDAÇÃO 2: Artigo de opinião sobre os limites da liberdade de expressão
A segunda proposta de redação do vestibular Unicamp 2018 solicita que o candidato produza uma reflexão argumentativa a partir da questão “Há limite para a liberdade de expressão?”, que será respondida por meio de um artigo de opinião. Vale considerar que a natureza dissertativa tanto do gênero, quanto da situação de produção faz com que a redação apresente uma tese clara, que funcione como resposta direta à pergunta, sustentada por argumentos objetivos a serem construídos a partir da coletânea.

A primeira parte do artigo de opinião poderia ir ao encontro do comando “identificar e explicitar os dois principais posicionamentos sobre a questão tratada”. Sendo assim, o candidato apresentaria o fato de que há quem defenda o cerceamento da liberdade de expressão e quem a considere um direito ilimitado.

Para provar a existência do primeiro posicionamento, a redação poderia apoiar-se nos textos de Fernando Schüler – que explica o fato de que o Brasil adota uma “legislação protetiva”, que diferencia a liberdade de expressão da disseminação de preconceitos, em contraponto aos EUA, onde há irrestrição dos discursos – ou de Djamila Ribeiro, para quem a liberdade de expressão deve estar submetida a regras que garantam o respeito ao outro. Para sustentar a posição contrária, o candidato teria como base, por exemplo, o texto de Bruno de Oliveira Carreirão, que destaca o fato de que a repressão a discursos considerados “desrespeitosos e preconceituosos” limita a livre expressão e viola a Constituição Federal.

Para dar continuidade ao artigo, era possível atender ao item “assumir um desses posicionamentos e sustentá-lo com argumentos”. Nesse ponto, se já não apresentada anteriormente, o artigo de opinião deveria estabelecer sua tese e sustentá-la argumentativamente, a partir, por exemplo, da definição dos limites entre liberdade de expressão e discurso de ódio - tratados amplamente pela coletânea, como nos textos de Luís Roberto Barroso, Marcelo Itagiba e Rachel Sheherazade – da descrição de consequências da proliferação do discurso de ódio – elencadas por Izidoro Blikstein e Linn da Quebrada – ou do modo como a liberdade de expressão é vista legalmente, tanto no Brasil, quanto em âmbito internacional – para tanto bastava recorrer aos textos de Luís Roberto Barroso e Bruno de Oliveira Carreirão.

Por se tratar de um artigo de opinião a ser publicado em jornal de grande circulação (“o jornal de maior circulação de sua cidade”), o candidato deveria estar atento à utilização de linguagem formal e também ao estabelecimento de uma progressão textual que pudesse ser acompanhada por um leitor médio, a partir do detalhamento dos diferentes posicionamentos e também dos argumentos do próprio artigo.

 



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